Warekena

David J. Phillips

Autodenominação: O povo se identifica como Warekena.

Outros Nomes: Guarequena, Uarequena, Werekena (DAI/AMTB 2010). Werekena (Meira 2002).

População: Brasil: 806, Venezuela: 409 (DAI/AMTB 2010).

Localização: 60% do índios do Rio Xié se identificam como Werekena (Meira 2002). Outros são Baré. Também no alto rio Negro ou Guaína em cima de Cucuí na Venezuela. Outros vivem em São Gabriel da Cachoeira. A nheengatu é uma marca cultura, mas no alto Rio Xié ainda falam Werekena (Meira 2002).

Em duas Terras Indígenas:

T. I. Alto Rio Negro de 7.999.380 ha homologada e registradade Werekena e 19 outras etnias, população total 19.721.

T. I. Cué-Cué/Maranitanas de 808.645 ha declarada com uma população de 1.864 Werekena e oito outras etnias.

Língua: Nheengatu, Warekena e português (DAI/AMTB 2010). A língua Werekena, como a Baré, é língua Aruak, mas com o contato com os não-índios adotaram nheengatu, que atualmente é uma marca da cultura. ‘Linguisticamente, Warekena do Xie é um dialeto da Baniwa do Guyana falado na Venezuela (Alexandra Y. Aikhenvald 1998,’Handbook of Amazonian Languages 4. p. 225). Os falantes, no entanto, se reconhecem como Warekena e, por isso, Aikhenvald optou por esse termo (www.etnolinguistica.org/lingua:werekena).

História: Os Warekena tiveram contato com europeus no século XVIII. Em 1753 o jesuíta Ignácio Szentmatonyi recordou que viviam no Xié e o chefe se converteu ao catolicismo (Meira 2002). Os Portugueses estavam preocupados com as fronteiras definidas pelo Tratado de Madrid em 1750. Governador Mendonça Furtado visitou o Rio Negro e convidou dois chefes dos Warekena e dos Baré a Barcelos; eles eram impressionados com as maravilhas da cidade. Mas uma segunda expedição de cinquenta índios mansos e brancos foram atacados, e todos os indígenas revoltaram contras os Portugueses. O Governador pediu uma expedição militar para punir os povos do Rio Negro, mas isso foi negado e o Governador tinha outros problemas porque a guarnição de Barcelos se amoitaram (Hemming 1987.25).

Em 1768 o padre José Monteiro de Noronha os descobriu no rio Içana que demonstram influença previa do Cristianismo por ter nomes bíblicos, e usavam pedaços de palha na orelhas furadas (Meira 2002).Também grupos moravam na cidade de Barcelos. Em 1757, houve uma rebelião contra os carmelitas, mataram um frade e desceram em força até Barcelos, mas perderam a batalha com uma força portuguesa enviada de Belém. Furtado subiu o Rio Negro e levaram índios cativos para Belém, inclusive muitos Warekena. Muitos morreram na prisão. Na época os espanhóis conseguiram a transferir a área do Canal do Cassiquare para seu território, atualmente a Venezuela. A reposta portuguesa foi mandar uma força no Rio Negro e construir fortes, inclusive São Gabriel da Cachoeira, e a nova fronteira foi confirmada na divisória das águas entre as bacias do Amazonas e do Orinoco (Hemming 1987.27).

Na primeira metade do século XIX os indígenas do alto Rio Negro sofreram o começo do extrativismo da borracha e também da piaçava, do puxuri e da balata. Os Warekena e os Baré eram envolvidos obrigatoriamente como as outras etnias. A estrutura social econômica era vertical com os índios coletores ou produtores estavam na camada mais baixa. Todos eram ‘patrão’ ou ‘fregues’, e o ‘patrão’ com contato com os índios era ‘fregues’ de um outro ‘patrão’ mais em cima na corrente da estrutura (Meia 1996.173). O Presidente da Província do Pará já em 1821 deu instruções punir os mercadores que maltrataram os ‘gentios’, isso é, os índios não na aldeias das Missões. Viajantes no meados do Século XIX descreveram o Rio Negro de ser depopulado, pelas ‘regates’ e epídemas de sarampo e febre vermelha (Hemming 1987.303).

Na Venezuela a situação da violência contra os indígenas era semelhante. Os índios eram levados aos vícios de embriaguez, a prostituição, os crimes de furto, roubo, homicídio e a escravidão, até os pais venderam seus filhos. Ainda no início do século XX, Oswaldo Cruz falou da migração forçada de índios do alto Rio Negro para seringais no baixo Negro. O aspecto sanitário dos indígenas era péssimo e febres e o beri beri dizimaram muitos. Nimuendajú comentou sobre a escravidão de dívida pela qual os comerciantes ou regatões exploraram os indígenas. Três firmas quase monopolizaram a exploração dos produtos até a década 60 do século XX, e outros comerciantes eram seus ‘fregueses’ nos rios da região e responsáveis pela violência e o deslocamento compulsório dos índios para as margens dos rios maiores. Quando o mercado do produto acabou eles retornaram para seu rios mais longe no mato (Meira 1996.175).

Entretanto o sistema de comerciantes ainda atua no rio Xié e nos outros rios da região. Baré e Warekena começaram a trabalhar no extrativismo com quinze anos de idade na segunda metade do século XX. Um regatão da época era ‘Sargento’ Guilherme, que transferiu pessoas do Xié para o rio Padauari, afluente na margem esquerda do médio Rio Negro. Todo que foram lá morreram de malária. Ele não pagava direito, os índios recebendo uns poucos artigos industriais em vez do salário prometido. Ele possuía um sítio estrategicamente localizado para impedir os índios escapar e proibiu a passagem dos ‘fregueses’ impondo sua vontade pela força das armas (Meira 1996.181).

Em 2002, uma equipe de três linguistas e um antropólogo tentou reconstruir a língua Werekena e trabalharam com 33 pessoas da etnia que ainda falam a língua, que se mistura com o Português e o Nheengatu. A professora da Unisul Marci Fileti Martins reconstituiu um alfabeto com 22 letras e um vocabulário de 100 palavras e alguns textos curtos.

Estilo da Vida: Os Warekena vivem em 140 sítios ou comunidades, cada uma compõe-se de um grupo de casas ou moradias construídas de pau-a-pique em redor um grande espaço, muitas vezes que dobra como o campo de futebol, uma igreja católica ou evangélica, uma escolinha e talvez um poto médico (Meira 2002). Há nove comunidades no Rio Xié: Subindo rio acima: Campinas, Santa Rosa, Nazaré, Cumati, Tunu-cachoeira, Umarituba, Tucano e Anamuim. Seis têm escolas municipais (FOIRN). Os índios do Rio Xié trabalham na extração da fibra da piaçabeira. Ficam nas comunidades para cuidar das roças e caçar e pescar durante os meses de outubro até fevereiro. No meses de maio a setembro viajam rio a cima para as barracas para coletar a piaçava (Meira 2002).

Sociedade: Na extração da fibra da piaçavaos comerciantes eram responsáveis pela mudanças dos índios das suas regiões de origem e os mantêm em um sistema de dívida. Hoje há ma tendencia de vender o produto diretamente em São Gabriel da Cachoeira. A maioria em comunidades ou povoados, que consistem de um grupo de casas tipo regional de pau-a-pique em redor de um patio grande de areia, e algumas têm também com uma ‘casa de oração’ evangélica ou capela católica, uma escolinha e até um posto médico.

Grupos de jovens das etnias Bare, Werekena e Baniwa adotaram o nome ‘Barekeniwa’ para unir os jovens em projetos em prol do fortalecimento da juventude indígena do Baixo Içana, usado inicialmente pelos alunos o curso de formação de professores indígena do Pol Nheengatu dos três povos. Agora há uma banda de jovens e um time de futebol na comunidade de Boa Vista, situada na foz do Rio Içana.

Artesanato:

Religião: As comunidades Nazaré, Yoco, Campinas e Vila Nova têm uma população na maioria evangélica, com o ministério da Missão Novas Tribos do Brasil, com uma base desde 1980 próxima à Vila Nova. Realizam conferências bíblicas em vez das festas caxiri e as dabucuris, nas quais a bebida e o tabaco são essenciais. Conforme Meira alguma pessoas doentes ainda procuram os pajés nas comunidades católicas.

As comunidades em cima da cachoeira Cumati, Tunu, Umarituba, Tucano e Anamuim são católicas. Nos cultos o latim ainda é usado e nas festas dos santos, especialmente os juninhos uma grande abundância de bebida, comida, dança e rezas por dias em seguido. As relações entre as duas partes do rio são geralmente amistosos (Meira 2002).

Cosmovisão:

Comentário: Muitos dos Warekena são evangélicos. Adilson e Cíntia Silva da Proamazonia chegaram em 2014 para dar assistência ao povo no Rio Xie.

Bibliografia:

  • CABALZAR, Alosio, 2006, (redator) Povos Indígenas do Rio Negro, uma introdução à diversidade socioambiental do noroeste da Amazônia brasileira, São Gabriel da Cachoeira/ São Paulo: FIORN-ISA.
  • DAI/AMTB 2010, ‘Relatório 2010-Etnias Indígenas do Brasil’, Organizador: Ronaldo Lidório, Instituto Antropos –instituto.antropos.com.br.
  • HEMMING, John, 1987, Amazon Frontier-The Defeat of the Brazilian Indians, London: Pan Macmillan (1995 edition).
  • HEMMING, John, 2003, Die If You Must – Brazilian Indians in the Twentieth Century, London; Pan Macmillan.
  • MEIRA, Márcio, 1996, ‘O Tempo dos Patrões: Extrativismo, Comerciantes e História indígena no Noroeste da Amazônia’, Lusotopie 1996, pp 173-187.
  • MEIRA, Márcio, 2002, ‘Werekena’, Povos Indígenas do Brasil, Instituto Socioambiental, São Paulo. pib.socioambiental.org/pt/povo/werekena.
  • SIL 2013, Lewis, M. Paul, Gary F. Simons, and Charles D. Fennig (eds.). 2013. Ethnologue: Languages of the World, Seventeenth edition. Dallas, Texas: SIL International. Online version: www.ethnologue.com.