Maxakali — Tikmu’ún

David J. Phillips

Autodenominação: Monacó bm (Nimuendajú 1958), entretanto o Joaquim S. de Souza, antigo chefe do Posto Indígena e perito na língua, da organização social e da história dos Maxakali, diz que eles se identificam como Kumanaxú. Mas Popovich (1992) que vivia com os Maxakali por vinte anos e conhece a língua muito bem, diz que usam o nome Tikmu’ún que é também um coletivo ‘nós’. Monocó bm refere possivelmente ao termo mõnãyxop (antepassado) (Popovich 1980.12).

Outros Nomes: Maxacali, Mônaco bm, Kumanuxú, Tikmunún, Monaxo, Caposho, Cumanasho Macuni, Monocho. Maxakali é um nome dado pelos neobrasileiros e de origem linguística desconhecida. Os próprios Maxakali não conseguem pronunciá-lo com facilidade (Popovich 1980.12).

População: 1.271 (DAI/AMTB 2010), 800 (ISA 1997) 1.500 (FUNASA 2010).

Localização: Vivem na Terra Indígena Maxakali de duas áreas – Água Boa e Pradinho unificadas na T. I. – no município de Bertópolis, cabeceiras do rio Umburanas, vale do Mucuri, no nordeste de Minas Gerais. É de 5.305 ha. e homologada em 1996 (ISA). 14 aldeias (SIL).

Língua: Maxakali. Da família linguística Macro Jê. Alfabetos em Maxakali 37% português 37%. Novo Testamento foi publicado em 1981 (SIL). Em Água Boa o português é falado que fluência mas em Pradinho somente os homens falam mas não muito bem. Entre si mesmos falam somente a Maxakali (Paraíso 1999). Nimuendajú considerou a língua não do Jê e por isso ficou ‘não classificada’ (Popovich 1980.11).

História: Os mais antigos registros históricos indicam que os Maxakali eram caçadores coletadores seminômades com uma agricultura incipiente e viviam entre o rio Prado no sul da Bahia e o rio Doce em Minas Gerais e no Espirito Santo (Paraíso 1999). No princípio o vale do rio Jequitinhonha foi povoado por fazendeiros de gado e madeireiros e caçadores de peles, e os Maxakali podiam abrigar-se nas florestas densas no alto vale e se adaptar devagar à presença dos invasores neobrasileiros (Popovich 1980.12).

O nome Maxakali é de origem desconhecida e referia a uma confederação de povos, aliados e morando nos mesmas aldeias no Vale do Jequitinhonha no princípio do século XIX. Eram oito grupos que se distinguiram por ter funções rituais diferentes. Mas com o avanço dos brancos as aldeias ficaram isoladas e tomaram mais o caráter de tribos distinguidas, mesmo que falavam a mesma língua e se aliavam ou moravam nas mesmas aldeias. Os próprios índios afirmaram que formaram uma só etnia (Paraíso 1999).

Depois a descoberta de ouro em Minas Gerais a coroa portuguesa proibiu até 1808 a penetração colonial no nordeste de Minas. O fim do século XIX a politica mudou para ocupar esta região e os indígenas sofreram opressão (Paraíso 1999). Também os Botocudos, que mudaram se da Bahia para o sul, dominaram a floresta e eram temidos por todos. Por causa dos conflitos entre as tribos os portugueses conseguiram derrotar a maioria dos outros (Hemming 1995.85). Os Maxakali se deslocaram para evitar os ataques dos brancos, e um grupo rendeu em 1786 aos portugueses para ganhar ferramentas de ferro para fabricar armas a fim de combatar outros tribos. Quando a família real transferiu se para o Brasil em 1808 baixou um decreto de guerra contra os Botocudo no rio Doce., manando que todos os prisoneiros devessem ser reduzidos à escravidão (Hemming 1995.89, 91). Nesta situação os Kamakã-Mongoió e os Maxakali aceitaram depois 1808 o aldeamento forçado e servirem nas tropas contra os Botocudos (Paraíso 1999).Um missionário católico, Antônio Lomba, trabalhou com alguns Maxakali no rio Pardo em 1808 (Hemming 1995.92).

A estrategia do governo para resolver o problema da agressão dos Botocudo era armar os Maxakali para lutar contra eles. Já tocaram o arco de flecha para espingardas, que era uma vantagem contra os Botocudo. O comandante, coronel Fernandes deu território aos Maxakali, porque eram um povo trabalhador e todo os colonos no Vale do Jequitinhonha usavam as cerâmicas, canoas e remos deles. Em 1858 eram descritos de ser conversos ao Cristianismo, ter um cemitério e tentando construir uma igreja (Hemming 1995.353). Em 1873 os frades capuchinhos fundaram o aldeamento de Itambacuri mas os Maxakali fugiram.

Em 1911 o SPI descobriu os aldeamentos dos Maxakali nos rios Rubim e Kran e sete aldeias pequenas nos rios Umburanas, Dois de Abril, Itanhém, Jucuruçu e Jequitinhonha mas não adotou medidas para se envolver. Quando a estrada de ferro Bahia-Minas abriu em 1914 os Maxakali tentaram ter contato com a cidade de Machacalis, mas depois se deslocaram para as cabeceiras do rio Umburanas. Em 1920 o Estado de Minas Gerais cedeu território para formar uma área para os índios. Porém um sertanista chamado Fergundes vendeu as terras e levou os índios para a Bahia. Depois alguns anos os índios resolveram voltar ao rio Umburanas (Paraíso 1999). Em 1939 Nimuendajú achou apenas 120-140 do povo, rodeados por todo lado por fazendas, e sofrendo epidemia de varíola e sarampo que reduziu a população a 59 em 1942 (Popovich 1980.13).

Já em 1939 no território dos Maxakali não houve caça, pesca e plantações capazes de suprir a alimentação do povo. Um Posto Indígena em Água Boa foi montado em 1940, mas deixando os do Pradinho desamparados. Este segundo território foi demarcado somente em 1956, mas deixou um corredor de fazendas entre os dois Postos. (Popovich 1980.3). O SPI colocou cercas para evitar o saque das roças dos Maxakali pelo gado das fazendas. Pradinho recebeu uma administração própria somente acerca de 1980. A população começou a crescer: 118 em 1943 e 189 em 1957 (Popovich 1980.13).

Em 1966 foi estabelecida a Guarda Rural Indígena que ‘controlava’ os índios com força policial. Os resultados desta política era beneficiar os posseiros e invasores das terras indígenas, aumentar os conflitos internos e criar um clima de constante revolta entre os índios (Paraíso 1999). Terra e gado dos Maxakali foram vendidos por agentes do SPI, e os índios atacaram das fazendas de represália. Os fazendeiros responderam por fornecer álcool aos Maxakali e depois usar pistoleiros para matá-los. Um policial conseguiu restaurar as propriedades indígenas por 1967 (Hemming 2003.229). Depois 1975 a nova FUNAI começou a luta para delimitar a Terra Indígena que foi homologada afinal em 1996 (Paraíso 1999).

Os Maxakali sofrem os problemas sociais de embriaguez e desajustes, com marginalização econômica, e respondem com isolação e resistência para manter sua cultura e sociedade, inclusive rejeitar casamentos e contatos interétnicos. A população diminuiu pelas condições impostas pela proximidade da sociedade nacional, com pela alta taxa de mortalidade infantil, baixo longevidade, mortalidade por conflitos internos e externos e os problemas de saúde (Paraíso 1999). A atitude para com a sociedade nacional é diferente entre as duas comunidades. Os de Água Boa se consideram ‘progressistas,’ os de Pradinho ‘tradicional’. O povo de Água Boa almeja ser iguais aos vizinhos neobrasileiros, e receber assistência médica e as oportunidade de trabalhar como diaristas. Em Pradinho os habitantes resistem as mudanças adotando uma atitude de selecionar apenas certas vantagens da cultura nacional, como a assistência médica. (Popovich 1980.15). Somente em 1980 o governo iniciou um programa de educação bilíngue para o Maxakali.

Os Maxakali, sendo caçadores coltadores, com a desaparecimento das florestas e sem o conhecimento dos conceitos de propriedade e renda que motiva a sociedade industrial e sem as habilidades de para exercer as funções agrícolas, tinham pouco tempo para se adaptar ao ataque dos não índios. Também as epidemias diminuiu a população até não havia indivíduos casadouros para manter a sua estrutura social de parentesco. Ser verdadeiro Maxakali é ser filho de um casal dentro as regras, e os outros não são aceitos, ameaçando a identidade Maxakali. As regras da sociedade têm que ser reinterpretadas (Popovich 1980.46).

Estilo da Vida: As aldeias Maxakali têm a forma de uma ferradura, as casas em redor de um terreiro e na parte aberta da ferradura fica a kuxex, a ‘casa de religião’, ou casa dos homens, que é um rancho simples sem paredes, coberto de capim. Aqui são realizados os rituais (Silva 2008.57). As casas tradicionais são hemisféricas, feitas de galhos e estacas finos curvados e amarrados em cima e recobertos com folhas de coqueiro ou patioba (Paraíso 1999). Hoje casas de família nuclear do tipo regional são preferidas pelos mais aculturados e assim evitam os conflitos entre as duas culturas (Popovich 1980.3). Alguns indivíduos, com viúvas, preferem morar neste tipo de casa em vez na casa comunal com os parentes do marido (Popovich 1980.15). Em 1980 havia somente três aldeias desta forma, Água Boa, Míkax Kakak e Xax Kunut (Popovich 1980.17).

Sendo caçadores coletadores os Maxakali criaram problemas por caçar e coletar nas fazendas em redor na Bahia e em Minas Gerais. Eles não têm prazer na vida de agricultor. Eles moram na parte mais pobre do Estado de Minas. O ecossistema das Terra Indígena tem deteriorado, os índios são desprezados como preguiçosos e bêbados. Eles vendam parte da sua produção agricolar em competição com os fazendeiros, que cultivam os mesmos produtos. Sua dependência em procurar os bens da vida moderna necessita dar mais tempo em trabalhar nas fazendas, que está em conflito com a necessidade de ter tempo educar as crianças e realizar os rituais. Também as oportunidades de ser empregados pelos fazendeiros são exatamente nas épocas quando eles devem trabalhar nas suas roças, plantio, colheita, etc.

Os homens caçavam, só quando a carne acabava e o grupo começa a passar fome, mas poucos precisam de sair para providenciar carne suficiente para o grupo. As mulheres plantam um pouco de batata, milho e mandioca e colhiam frutas e castanhas da floresta (Popovich 1980.16). Os homens fazem diversos artigos e artesanato. Para caçar usam um arco de pau d’arco ou palmeira com um profundo sulco longitudinal na parte dianteira para uma segunda flecha. Também as mulheres pescam, coletam e realizam a colheita das roças. Responsabilizam-se também pelo transporte dos pertences familiares e das crianças durante os deslocamentos do grupo (Paraíso 1999).

Sociedade: A etnia Maxakali se forma de grupos domésticos de uma família extensa, com duas a cinco casas juntos. São matrilocais de parentes consanguíneos, liderado pelo homem mais velho (Paraíso 1999). O parentesco é muito importante na sociedade Maxacali. Membros do grupo são chamados Xape, dos quais se esperam boas relações e auxilio. Os Xape Xe’e (‘parentes verdadeiros’) são pais, avós, irmão com pelo menos um dos pais em comum, e filhos e netos. Um parente colateral é xape max (‘parente bom’) e são as tias maternas ou os tios paternos e seus filhos, os primos paralelos. Um amigo pode ser Xape. Há também parentes mais distante chamados os Xape-Hãptox Hã e são os tio maternos, as tias paternas e os primos cruzados (Popovich 1980.27).

Os outros de outros grupos familiais e inimigos são chamados Puknõg (não parentes). O casamento preferido é com Puknog ou Xape-Hãptox Hã para diminuir conflitos (Paraíso 1999). O casamento ideal na cultura Maxakali é o de primos cruzados matrilaterais. O casamento é com alguém considerado de ser puknõg (‘não parente’).

O casamento é considerado um processo e o casal mora pelo primeiro ano na casa dos pais da noiva, e muitos se separam durante este tempo. Não há uma iniciação para as meninas, a dos meninos é iniciação religiosa e não social. Há preconceito da comunidade contra casamento com não Maxakali. Valorizam ter muitos filhos para a sobrevivência do povo, e viúvas e solteiras devem ter filhos para não ficarem sozinhas. Devem ter filhos com intervalos de dois anos, ‘porque só não índios e cachorros têm filhos cada ano!’ (Popovich 1980.23).

As crianças recebem seus nomes pelos pais ou avos na segunda semestre da vida, quando percebe-se tem condições de sobreviver. As crianças não aprendem os nomes dos avos já falecidos, porque os pais não falam deles (Popovich 1980.9). Quando os meninos atingem a idade de sete anos são iniciados na tribo. O menino é conduzido para a kuxex, a ‘casa de religião’, que é o local sagrado e proibida às mulheres, e ele permanece dentro por trinta dias, e durante este tempo seu introdutor na religião, geralmente o pai ou tio, transmite ao menino toda a história e os segredos da cultura Maxakali. Ele aprende os cânticos ensinados pelos espíritos. O seu alimento, preparado pela mãe, é passado para o seu introdutor, que o leva ao menino. Depois dos trinta dias o menino é enfeitado com pinturas e colares e sai da kuxex e toda aldeia festeja (Silva 2008.158).

As crianças vivem com a mãe, ainda quando o pai morre, mas se a mãe morrer a criança vive abandonada, mas a tradição é que a irmã da mãe toma responsabilidade por elas (Popovich 1980.24). Devido ao fato que os Maxakali evitam falar dos mortos ou usar os nomes na sociedade é difícil conversar sobre parentela (Popovich 1980.3,7).

Os papeis dos membros da família aceitos como ‘parentes verdadeiros’, são os seguintes: O pai providencia a carne pela caça e outra comida pela plantações, e ensina o filho a fazer arco e flecha e a caçar, ajudado pelo avô e ensinar as tradições. A mãe deve cozinhar e lavar a roupa do marido e filhos mais novos. O filho providencia a lenha. A relação entre a mãe e as filhas é a mais íntima. A mãe ensina as filhas e as órfãs da irmã a tecer os saquinhos de malha, a lavar as roupas e a fazer potes de barro. O avô ensina as tradições secretas aos netos. Os tios paternos e as tias maternas podem ser chamados ‘avós’ e dão o mesmo carinho. Também amigos podem ser ‘adotados’ com a esperanças de cumprir as mesmas obrigações (Popovich 2004.35).

O maior grupo da sociedade é o xop ou bando que é formado de um número de grupos domésticos que têm integrantes suficientes para manter o ritual e se juntam em redor de um líder e um kuxex ou ‘casa de religião’ (Paraíso 1999). A sociedade Maxakali tem uma tendencia de se dividir e dispersar e o estilo de liderança é sempre a procura do consenso. Então os grupos domésticos e os xop podem dividir e se reformar conforme as crises, mas os xop ainda têm a maior possibilidade de se manter em termos econômicos, sociais, políticos e religiosos. A aculturação e uma morte pode causar a desintegração de um grupo, mas há uma tendencia de irmãos biológicos ficarem juntos. Os homens mais aculturados, criadores de gado etc. moram um pouco afastados do grupo maior, porque o sistema de partir o produto com todos não dá mais, e poucos parentes ajudam a plantar e colher. Quando há uma briga, um ou até ambos os lados se separam do grupo (Popovich 1980.16, 18).

Os anciões ou avôs formam um conselho que expressa as opiniões de consenso, mas nenhum deles é líder. Nimuendajú escreveu que os dois chefes Maxakali tinham grande influencia por suas opiniões e seu conhecimento dos rituais. Entretanto o casal Popovich durante vinte anos nunca descobriu o termo para ‘chefe’, e parece que o povo desconhece o conceito. Parece mais provável que eles nunca dispuseram de tal tipo de liderança, por ser independentes de mais. O conceito era imposto pela sociedade dominante por um índio escolhido como ‘capitão’ para facilitar a administração, mas este não tem prestigio ou influência entre o povo. (Popovich 1980.23).

Artesanato: Os homens confeccionam arcos e flechas, vassouras, cestos, peneiras para vender nos mercados de Santa Helena e Batanga. As mulheres confeccionam vasos cerâmicos de vários tamanhos, redes de dormir, colares, cestos de carga, redes de pescar, sacos e sacolas feitos (Paraíso 1999).

Religião: Cácio Silva escreve: ‘Na base da sua concepção do divino estão os yãmiy – “espíritos do canto”. São os espíritos dos falecidos que, apesar de viverem no mundo dos mortos podem interagir com os vivos. São detentores do conhecimento e, idealmente, somente eles sabem fazer os instrumentos musicais, as máscaras para os rituais, pinturas e até mesmo o arco e flecha de caça. Entretanto, o contato com eles é muito melindroso, pois estão sempre querendo levar os vivos para o seu mundo. Por isto são considerados maus e consequentemente evitados’ (Silva 2008.54).

‘Os yãmiy se agrupam de forma misteriosa formando uma segunda categoria de entidades chamadas yãmiyxop. Não são simples agrupamentos, pois adquirem personalidade, e é através desses que se dá o contato com o divino. Estes yãmiyxop estão ordenados em vários grupos – provavelmente doze ou quatorze – e se dividem em muitos subgrupos. Há o yãmiyxop do morcego, do gavião, da mulher e assim por diante’ (Silva 2008.54).

‘A figura central do divino para os Maxakali é Hãmgãyãgñag, uma alma finada individual, soberana das forças do mal. Eles têm pavor dessa entidade, sendo esse temor que rege o relacionamento com a mesma, mediado pelos yãmiyxop. Segundo eles, Hãmgãyãgñag se manifesta como uma onça feroz que vive na mata e devora as suas vítimas. Entretanto, a cosmologia Maxakali mantém a memória de Topa, Ser Supremo, bondoso criador do mundo, o qual há muito tempo atrás vivia entre os homens. Havia um pacto entre Topa e os Maxakali, porém, este foi quebrado. Topa então enviou sobre a terra um grande dilúvio e retirou-se do dia-a-dia do povo. Desde então os Maxakali não se relacionaram mais com Topa, entrando a figura de Hãmgãyãgñag e dos yãmiyxop. Topa continua sendo o Ser Supremo, porém, ocioso, ausente do cotidiano do povo, por ter sido substituído por deuses inferiores e espíritos’ (Silva 2008.54).

Enfrente à kuxex, ‘casa de religião’, são fincados os mimãnãm – “paus de religião”. São varapaus ou troncos de madeira através dos quais os yãmiyxop “descem” no momento dos rituais. Os maiores são pintados em uma lateral com riscos e pontos, os quais indicam os cânticos e movimentos cerimoniais. Geralmente existem três mimãnãm de tamanhos diferentes: um varapau de aproximadamente oito metros de altura destinado ao Xunimkup– “yãmiyxop do morcego” – e dois troncos pequenos, com cerca de um metro e meio de altura, sendo um destinado ao Yãmigkup – “yãmiyxop da mulher” – e o outro ao Mõgmokakup – “yãmiyxop do gavião”. Durante certos rituais eles penduram colares e outros objetos na ponta dos mimãnãm, consagrando-os assim aos yãmiyxop. Às vezes, galinhas vivas são penduradas e os celebrantes atiram flechas nelas até ficarem completamente cravadas’ (Silva 2008.58).

As doenças são mais que um fenômeno físico, são a atuação de uma entidade pessoal maligna, que está tentando capturar a alma, ou de um inimigo humano que fez alguma bruxaria contra a pessoa ou contra a comunidade. Para os Maxakali são os espíritos dos mortos que capturam as almas dos vivos, especialmente das mulheres. As curas de erva e raízes de plantas espantam o espírito. Entre os Maxakali os recém-nascidos, por não ter nome não existem socialmente, e os idosos não recebem os rituais de cura. Comida é oferecida ao espírito. ‘Acompanhado pelos parentes do doente, o líder do grupo residencial, canta, dança e pergunta em voz baixa ao doente qual o espírito que o tormenta e, ao espírito, quais os seus desejos.’ Os homens retiram-se para a ‘casa de religião’ no pátio, onde adotam as medidas à continuidade dos trabalhos. Voltam ao doente para nova ‘sessão de cânticos e súplicas, lançando grandes baforadas de fumo sobre o paciente.’ Quando o cachorro da casa gene é sinal que contato é estabelecido com o espírito. A casa ‘é deixada no escuro e usam os zunidores até novo ganidos do cão Este é o sinal indicativo da saída do espírito’. ‘O ritual de cura estabelece a ordem e restaura a separação entres os mundos (dos mortos e dos vivos)’ (Silva 2008.106).

Os Maxakali praticam uma cerimônia de propiciação nas épocas de plantio e colheita em janeiro e entre maio e outubro. Estas cerimônias destacam os papeis dos homens e as mulheres. Os homens são divididos em dez grupos de dois a sete indivíduos, a afiliação aos grupo é herdada dos pais (Popovich 1980.22). Eles retiram para a mata e retornam à aldeia em fileira, pintados e com vestes cerimoniais, carregando o mastro cerimonial que é fincado no chão em frente à casa da religião. Entram na casa para os rituais secretos. Um animal destinado ao sacrifício é caçado com flechas; ele serve de elemento de troca com os produtos da roça, que as mulheres contribuem a festa.

Enquanto os homens fazem isso, as mulheres ficam nas suas casas preparando os alimentos. Todos participam das danças no pátio, porém somente os homens podem usar os instrumentos musicais: chocalho, apito de taquara, zunidores e flechas rituais. Depois as danças os alimentos são trocados entre os homens e as mulheres e o ritual termina com um banho no rio. Hoje em dia a festa continua mas com café e bolachas e o animal é doado e abatido no pátio (Paraíso 1999).

Seus rituais fúnebres são marcados por muito choro, mas o corpo não é enterrado pelos parentes e sim pelos amigos. O sepultamento deve ser o mais rápido possível, antes do pôr-do-sol. Neste ínterim, todo o grupo residencial deve abandonar as casas e queimar a casa do morto. Após o sepultamento, a família de luto muda-se temporariamente para a casa dos parentes mais próximos. Caso a morte aconteça durante a noite, todo o grupo permanece em vigília, sepultando o corpo logo pela manhã. Isto se dá porque, na cosmovisão Maxakali, os espíritos dos mortos ameaçam os vivos com doenças e até morte. Se a sua casa não for destruída, o espírito do morto ficaria rondando a mesma e roubaria as almas dos seus familiares (Silva 2008.106).

Um assassinato é vingado pela morte do assassino para cumprir a ideia de reciprocidade de repartir os bens uns com os outros e também a justiça. Um grupo pode se dividir depois de uma morte natural ou violenta, e não fala da morte e do falecido para ‘esquecer’ e evitar o espírito do morto voltar aos parentes procurando seu corpo. A ente querida na vida se transforma em uma representação maligna e desconfiável (Popovich 1980.18). Um resultado de ‘esquecer’ dos mortos é que os Maxakali não se identificam com antepassados ou pela descendência patrilinear (Popovich 1980.22).

Os rituais são realizados pelos dez grupos e os Maxakali não têm xamã ou pajé e os ritos de magia realizados por indivíduos são considerados perigosos. Apenas uma acusação de feitiçaria podem merecer a morte, especialmente quando isso envolve a morte de um parente. O parente do falecido tem o direito de ‘pagar’ pela morte (Popovich 1980.24).

Cosmovisão: Topa é o suprem ser na cosmovisão dos Maxakali. A pesca é explicada pelo mito da linda lontra que Topa lhes deu dizendo ‘os Maxakali jamais passarão fome’. A condição era que os primeiros peixes grandes que a lontra jogava na praia fossem reservados para Topa. Assim os Maxakali fizeram por muitos anos, porém um dia, o genro de um dos velhos pediu a lontra para pescar. O genro colocou os três grandes peixes na sua sacola. A lontra procurou os três peixes. Não os encontrando, pulou no rio . . . e desceu o rio abaixo. A aldeia ficou triste e o velho disse, ‘Topa vai nos castigar’. Topa mandou um grande dilúvio e os Maxakali subiram nas arvores, mas a água subiu e os alcançou quando fugiram para o cume da montanha mais alta e morreram todos os Maxakali daquele tempo.

O genro, com grande pavor, se escondeu em um pau oco e tampou as extremidades com areia e couro de veado e ficou por quarenta dias flutuando no mar, até baixaram as águas. Topa veio à terra em forma de besouro. Ele ouviu a voz dos genro ‘Topa! Me tira daqui!’ Topa cortar o pau com um machado, mas cada vez era o lugar da perna ou da cabeça do genro até afinal destampou o fim do pau e tirou o homem. Topa acendeu uma fogueira e foi aquecendo-o girando seu corpo, pois o homem era branco, magro e fedia de longe. Depois que ele recuperou Topa o deu comida e ofereceu levá-lo para o seu lugar. Mas o homem recusou, queira ficar na terra sozinho. Então Topa o ensinou a fazer uma armadilha para pegar uma mulher. Pegou muitos animais mas nunca uma mulher. Um dia achou uma cabana na mata e dentro uma veadinha, que era uma mulher encantada. Matou o marido veadão e casou-se com a mulher, e a assim o povo renasceu (Silva 2008.149-151).

Assim uma lenda atribui a formação da tribo maxacali à cópula de um homem com uma veada, enquanto os não-índios ou neobrasileiros, conforme acreditavam, eram descendentes das cinzas de um monstro lendário, o ‘ĩnmõxa (Popovich 1980.21).

O Sol e a Lua são irmãos. A mãe deles morreu e o Sol a enterrou mas ela se ressuscitou. Em seguida a Lua a enterrou novamente batendo bem a terra, dizendo, ‘A senhora morreu esta vez e não vai nos seguir’. O Sol ficou com raiva, porque a Lua nunca aprendia pela experiência. Um dia o Sol encontrou com um pica-pau no mato. Ele pediu que a ave o desse sua coroa de penas vermelhas. O pica-pau mandou o Sol roçar a pouca terra em baixo da árvore e depois jogou as penas para baixo. O fogo das penas apagou-se. Depois a Lua quis uma coroa de penas. O pica-pau o mandou roçar uma grande área, mas quando o pica-pau jogou as penas o fogo queimou a Lua e queimou uma grande área até as chamas se apagaram somente quando alcançaram um rio. As estórias ensinam que todas as coisas más são feitas pela Lua, e o Sol fica com raiva, se transforma em uma onça para matar a Lua. Por isso eles estão céu e nunca juntos (Popovich 1984).

Comentário: O casal Harold e Frances Popovich do SIL viveu entre os Maxakali de 1959 a 1987 e escreveram trabalhos sobre a língua, a sociedade e a religião. Harold desenvolveu o alfabeto e produziu cartilhas de alfabetização e traduziu o Novo Testamento e Hãpxop te mãxap: Gênesis abreviado na língua Maxakalí (1971). Ele treinou monitores alfabetizados que se tornaram mais tarde os primeiros professores do Programa de Implantação de Escolas Indígenas (PIEI) do Governo do Estado de Minas Gerais. A Missão Novas Tribos do Brasil trabalha com este povo (MNTB).

Bibliografia:

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  • POPOVICH, Frances Blok, 1980, ‘A Organização Social dos Maxakali’, Dissertação Apresentada ao Departamento de Sociologia da Universidade do Texas em Arlington como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre em Sociologia. Tradução de Helena Vera Flor www.sil.org/americas/brasil/publcns/anthro/MXSocOrg.pdf
  • POPOVICH, Frances Blok 1984. ‘The Sun and Moon: A Maxakali Text’ em Estudos sobre Línguas e Culturas Indígenas: Trabalhos linguísticos realizados no Brasil (edição especial) Gudschinsky, Sarah C., editor, Brasília: Instituto Linguístico de Verão, 1971, 29-59. www.sil.org/americas/brasil/publcns/ling/MXSunMoo.pdf
  • SIL 2009, Lewis, M. Paul (ed.), Ethnologue: Languages of the World, Sixteenth edition. Dallas, Tex.: SIL International. Online version: www.ethnologue.com.
  • SILVA, Cácio Evangelista de, 2008, Fenomenologia da Religião compreendendo as ideias religiosas a partir das suas manifestações, Anápolis, GO: transcultural Editora e Livraria Ltda.