Miqueleno — Puruborá

David J. Phillips

Autodenominação: Puruborá significa ‘povo da onça’ ou ‘aquele que se transforma em onça para curar’ com referências aos antigos pajés (Velden et al 2015).

Outros Nomes: Kuyubi, Puruborá, Poumbora, Miguelenho (DAI/AMTB 2010)

População: 50 (DAI/AMTB 2010), Miqueleno 242 (2010), Puruborá 209 (FUNASA 2010). Devido à dispersão do povo Puruborá, a contabilização da população vareia entre 200 e 1.000 (Velden et al 2015).

Localização: Rondônia, vivem em diversos lugares. Terra Indígena Puruborá está em identificação. O território é entre os rios Caio Espíndola a oeste e rio Cabixi a leste, a rodovia BR-429 ao sul e a T.I. Uru-Eu-Wau-Wau ao norte (Venden et al 2015).

Língua: Puruborá (DAI/AMTB 2010), a língua é do tronco txapacura. Também considerada a única representante da família linguística própria, do tronco Tupi (Venden et al 2015). Puruborá e Miquelino é a mesma língua, com nomes: Puruba, Aurã, Pumbora, Puroborá, Burubora, Kuyubi, Cujubi, Migueleno, Migueleno (SIL). O último falante morreu em 2010.

História: Os Purubolá eram considerados isolados por Darcy Ribeiro em 1900. O território original do povo era na atual T. I. Rio Branco, no município de Alta Floresta, habitada pelos Tupari, Arikapú, Jaboti ou Djeeoromitxi e Makurap, mas migraram para o vale do rio Miguel (Venden et al 2015). Eles foram contatados em 1909 pelo Coronel Rondon, durante a construção da Linha Telegráfica ligando Mato Grosso a Guajará Mirim, na região dos rios São Miguel e do seu afluentes rio Manuel Correia onde foi instalado o posto Três de Maio. Os Puruborá foram para o local onde mantiveram o contato com Rondon no Posto Indígena Três de Maio (Barboza 2014). Marechal Rondon delimitou uma área de cerca de 67.600 ha para uso dos índios do rio São Miguel (Venden et al 2015).

Ali serviam de mão de obra para os vários seringalistas, e foram pagos com ferramenta, roupa, café, etc. Durante a Segunda Guerra Mundial os seringueiros do nordeste foram incentivados a superam sua cota anual em toneladas de extração do látex e foram pagos por ‘casamentos’ com índia órfãs, criadas pelos seringalistas e funcionários do SPI. O funcionário do SPI do Posto Três de Maio foi substituído e este episodio acelerou a desagregação dos Puruborá. Houve três expulsões dos Puruborá, antes de 1940, em 1982 pelo IBAMA com a delimitação da Reserva Biológica do Guaporé. A terceira expulsão aconteceu quando do processo de delimitação da T. I. Uru-Eu-Wau-Wau os Puruborá não eram considerados mais índios (Barboza 2014).

Os Puruborá eram considerados extintos pela FUNAI, por ser ‘mestiços’. Seu território tradicional era em parte dele está dentro da Reserva Biológica do Guaporé, na localidade do Limoeiro. Foram expulsos pelo Ibama nos anos 84-86 e ficaram espalhados no vizinho local de Porto Murtinho (hoje distrito de São Francisco de Guaporé), e também em Costa Marques, Surpresa, Guajarás Mirim e outras localidades. Esta situação resultou na sua integração às comunidades não indígenas e a mistura por casamento.

Há somente duas pesquisas realizadas acerca dos Puruborá: Ana Vilacy Galúcio que apresenta uma contribuição acerca do sistema fonológico da língua, inclusive informações etnográficas e a outra José Barboza do CIMI (Oliveira 2014).

Como outras etnias os Puruborá vem reforçando suas lutas pela recuperação do seu território tradicional que afirma também sua identidade indígena. Isso envolve corrigir o preconceito do não índio que o ‘índio’ só vive na floresta e fala apenas sua língua materna e se comporta conforme seus costumes (Oliveira 2014). Os Puruborá lutam pela demarcação do seu território e reconstrução de sua identidade, através do resgate e revitalização de sua cultura: das histórias, das memórias, das músicas, rituais, enfim, das experiências de vida deste povo (Oliveira 2014).

O processo de ressurgimento começou em 1999 e 2000, auxiliado pelo CIMI e COMIN da igreja Luterana, e povo deu inicio a suas assembleias anuais com 200 participantes (Barboza 2014). A luta pela posse da terra foi liderada pelo cacique Hosana Castro de Oliveira Montanha, mas assumiu características violentas por ameaças e a relutância da FUNAI. Mas em 2008 a FUNAI realizou um estudo antropológico e em 2010 foi constituído o Grupo de Trabalho que deve definir os limites territoriais do povo indígena miqueleno (PIB). Morreu em 2013 Dona Emilia Nunes de Oliveira Puruborá com 80 anos, mãe da cacique Hosana Puruborá e 16 outros filhos. Mandada por sair da sua terra pela FUNAI, que creu que o povo Purborá seja extinto, ela ficou por comprar um lote dentro do território tradicional do povo. Ela pelejou para a demarcação da Terra Indígena. A aldeia Aperoy está no lote dela (CIMI).

Estilo da Vida: A única aldeia Puruborá em 2015 é aldeia Aperoy, criada após o ressurgimento. A aldeia fica localiza da no município de Seringueiras, entre a rodovia BR-429 e o rio Manuel Correia. Outras famílias vivem em áreas próximas, na localidade denominada Porto Murtinho atualmente ocupado por Migueleno e Puruborá, no município de São Francisco. Também vivem nos municípios de Costa Marques, Ji-Paraná, São Miguel, Ariquemes, Porto Velho e Guajará-mirim. (Barboza 2012).

A aldeia Aperoy é delimitada no oeste e norte pelo rio Manoel Correia, próxima de sua confluência com o rio Caio Espindola/São Francisco, afluente do rio São Miguel que é afluente do rio Guaporé. A terra era rica em castanhais, muitos deles derrubados para fazer pastos das fazendas de gado e plantações de soja. O óleo e o leite da castanha eram muito utilizados no alimento e curativos do povo. O povo cultivam roças de macaxeira, feijão, milho, batata doce, abóbora e café. Algumas famílias cultivam inhame para o comércio, outras criam gado. Quase todas vendem leite. A caça é pouca devida ao desflorestamento.

Sociedade: Os Puruborá seguem as mesma forma de parentela dos vizinhos não índios. Muitos são casados com não índios. Mas mantêm o conhecimento do parentesco e sua cacique Hozana Puruborá participa em muitos eventos para representar o povo. As mulheres da aldeia são bem articuladas na luta para seus direitos e pela demarcação de sua Terra (Venden et al 2015). Os Puruborá, como os outros grupos indígenas ‘ressurgidos’ mantêm uma assembleia anual do grupo onde atualizam suas convicções, sonhos, cultura e a própria unidade (Barboza 2012). Os jovens estão interessados em possíveis ações de revitalização a língua (Velden et al 2015). Um Vocabulário Ilustrado-Animais na Língua Puroborá por Ana Vilacy Galúcio do Museu Paraense Emilio Goeldi, Belem, Pará, foi preparado em 2013. Uma escola indígena na aldeia está recuperando a língua.

Artesanato: Algumas mulheres confeccionam ‘maricos’ ou bolas de fibra de tucumã, redes de algodão e de tucumã, colares, brincos e anéis. Estes artigos situam no conjunto das tradições artesanais dos povos do vale do Guaporé, que Denise Maldi Meireles denominou o ‘complexo cultural do marico’ (Venden et al 2015). Os caraterísticos do complexo são: Uma família extensa e patrilocal morando em uma maloca redonda, estrutura de abóbada, apoiada por um esteio central. Com a ausência da cultivação da mandioca ‘brava’, e pois a falta da farinha do mandioca, plantam o milho e beberam a chicha de milho na alimentação diária. Também bebem a chicha fermentada nas festas cerimoniais.

Religião: Os Puruborás adotaram o catolicismo na década 30 (Venden et al 2015). 20% Cristão, 2% Evangélicos, 80% tradicional (Joshua Project).

Cosmovisão:

Comentário: As missões MNTB e JOCUM têm contribuído em contatos e assistência escolar entre os tribos na região (Veja Gonçalves 2010).

Bibliografia: